9.12.2017
MANEJO DO ZEBU LEITEIRO
Para quem, nos últimos anos tem pregado incessantemente a formação de rebanhos leiteiros com base nas raças indianas, é de fato um motivo de alegria ver hoje o grande número de criadores que escolheram este caminho certo, abandonando velhas concepções ultrapassadas de se criar o zebu apenas levando em conta caracteres morfológicos.
Mesmo em Uberaba, onde a balança nunca foi um elemento importante nas fazendas, o quadro é diferente, .como se pode ver nas páginas da tradicional revista ‘'Zebu”, onde, ao invés de apenas fotografias, já se vêem marcas de controle leiteiro.
Em face dos resultados que obtivemos aqui, com as raçãs Gir, Indubrasil e Guzerá, assinalando recordes com as três, vez por outra perguntam-me como atingimos lactações tão altas, até de 4 913 quilos em 365 dias. Por isso, acho oportuno abordar èsse tema, principalmente levando em conta que o zebu leiteiro vem sendo trabalhado mais em regiões sem experiência na exploração de rebanhos leiteiros, fora das tradicionais bacias, onde certamente muitos criadores de gabarito só lerão êste artigo como curiosidade, pois entendem mais do assunto do que o autor.
Gostaria de salientar a importância do manejo, contando a história de, “Alegria Baluarte de Brasília”, uma vaca Gir que, antes, numa fazenda rotineira. uma só ordenha, regime de pasto, produzia apenas 12 quilos de leite por dia. Vendida à Fazenda Brasília, já na primeira lactação efetuada naquela fazenda atingiu 17 quilos por dia. No ano seguinte, todavia, em controle oficial produziu, em três ordenhas, 21 quilos e 50 gramasi colocando-se como campeã nacional, e, segundo os dados oficiais que possuo do Governo da Índia, até o momento, como campeã mundial, produzindo quase 5 000 quilos de leite em 365 dias, com um teor de gordura de 7%.
Foi milagre? Certamente que não, porque muitas outras vacas responderam na mesma proporção.' E estou certo que a superioridade revelada, hoje, do Gir sôbre o Guzerá, em matéria de produção de leite, está mais presa a fatores de manejo, qualidade de pastagens e alimentação do que propriamente a uma supremacia que a meu ver não está tão ligada assim ao potencial gaiactófaro das duas raças.
O Sistema Garst-Peres-Prata
O manejo atual que damos a nossos plantéis leiteiros é um “cocktail”, em que funcionam a experiência de Roswell Garst, de Coon Rapids, Iowa.
As vacas vivem em pastos de colonião, angola, pangola e napier. Nos mesmos, há cochos com a mistura ureia-melaço à vontade, e outros com sal mineralizado e farinha de ossos. Durante as ordenhas, recebem milho triturado, ao qual se adiciona mais palha e sabugos triturados. Nos pastos, onde os bebedouros naturais são mais distantes, foram construídos tanques de cimento que. uma bóia mantém sempre cheios de água limpa. A primeira ordenha é procedida às 6 horas e a segunda às 16. As vacas que produzem mais de 20 quilos por dia são ordenhadas mais uma vez, às 22 horas.
Os estábulos são simples, funcionais, criação do famoso arquiteto especializado em construções rurais, professor Cuno Roberto Lussy, da Escola de Arquitetura de Belo Horizonte. Possuem uma parte coberta com cochos e comedouros para 12 vacas, que ficam presas pelo pescoço com correntes, que deslizam em canos de ferro de l”l/4. Fora, dois currais, onde aguardam a hora da ordenha e onde permanecem após a ordenha, amamentando os filhos. Ambos possuem grandes cochos, colocados na parte externa (retira- se uma régua da cerca), sempre cheios com mandioca, batata-doce, napier e outras forrageiras picadas. Não há divisões, porque, com o hábito e fartura em pouco tempo comem sossegadas, evitando-se, assim, a enorme despesa com os velhos estábulos cobertos do passado, em que cada vaca possuía sua própria baia. Isto hoje custaria uma fortuna. Enquanto dois homens procedem à ordenha, as 12 vacas do estábulo coberto têm tempo suficiente para comer a ração concentrada (milho triturado com palha e sabugo, às vezes outro tipo de ração balanceada).
A cobertura é feita no curral, 60 dias após a parição. Novilhas prestes a criar começam a ganhar ração no estábulo e a ser educadas no manejo, para que depois não venham a quebrar a produção, em face do sistema a que vão ser submetidas.
Os bezerros não vão aos pastos com as mães. Durante o dia, permanecem em piquetes de pangola. Recebem o leite em balde-mamadeira, para que se ordenhem as mães a fundo, exercendo, assim, forte ginástica, que tem aumentado o tamanho dos úberes de forma excepcional. Como o leite do zebu é muito gordo (majs de 5% no Gir, mais de 6% no Guzerá, em média), depois dos 3 meses começam a receber parte do leite desnatado (compramos leite desnatado em pó na Cooperativa de São Domingos do Prata). Embora os bezerros sejam muito bem alimentados, pois serão vendidos como reprodutores, as sobras dos plantéis leiteiros já produzem alguns milhões de cruzeiros por mês, o que ajuda bem a manter as despesas fixas das fazendas.
Os três rebanhos são formados por fêmeas e touros registrados peia S. R. T. M., e portanto os bezerros são todos oficialmente controlados. Este serviço vem sendo procedido pelo excelente delegado do Serviço de Registro Genealógico, professor Maurício Ribeiro Gomes, antigo catedrático da famosa Escola de Agronomia de Viçosa, um benemérito da pecuária nacional.
A assistência veterinária é dada peio’Dr. Raimundo Rodrigues, veterinário da Fazenda Brasília. Tôdas as fêmeas são vacinadas contra brucelose, mesmo se adultas adquiridas sem a vacinação na época recomendada dos 4 aos 10 meses. Vacina-se contra aftosa. com vacinas trivalentes. de 4 em 4 meses, alternando- se as marcas. Aos cinco meses todos os bezerros são vacinados contra carbúnculo sintomático.
Qualquer vaca suspeita de mastite é imediatamente isolada para tratamento, evitan do-se que seu bezerro, lambendo outros, faça com que estes contaminem suas mães. Para não falarmos nas mãos dos próprios ordenhadores.
Como um quilo da mistura ureia-melaço tem o mesmo valor protéico de um quilo de farelo de algodão, nem se pensa em consumir este. De fato, estamos comprando o melaço a Cr$ 8 o quilo e pagando Cr$ 5 de transporte, o que o deixa a Cr$ 13 o quilo na fazenda. Com ureia a Cr$ 450, gastando 10% para um quilo de melaço, temos mais Cr$ 45 que, somados aos 90 de melaço (Cr$ 12, mais ou menos), tornam o custo do quilo da mistura em Cr$ 57. Que se adicione mais Cr$ 3 para a energia elétrica do misturador, temos o preço de Cr$ 60 para um quilo da mistura, portanto menos da metade do preço de um quilo do algodão, e com a enorme vantagem de se dar a mistura à vontade, num cocho único, cada vaca comendo o que precisa, quando é quase impossível distribuir as tortas cientificamente, de acordo com peso e produção das vacas. Penso que dei uma ideia dos caminhos a seguir. Estou certo de que é uma receita para o sucesso, embora em cada região este ou aquele elemento não seja viável. Mas quem quiser ver como o sistema funciona bem, basta abrir um exemplar da “Revista dos Criadores” e ver o controle oficial da Fazenda Brasília, que só trabalha com Gir puro. Aviso, sobre este aspecto, porque rebanhos 'agirados' também vêm sendo controlados.
Naturalmente que em muitas regiões o melaço custa mais caro do que aqui em São Pedro dos Ferros. Mas onde o preço dele for competitivo com os farelos ou tortas de oleaginosas, em face da maior facilidade para o arraçoamento, e melhor aproveitamento dos alimentos grosseiros, deve ser posto em prática o sistema que usamos aqui, de vez que a ureia é facilmente transportável, porque altamente concentrada.
Para fornecer 680 gramas de proteína diariamente a uma vaca com produção de 10 litros de leite eu teria que dar usando rações balanceadas comuns, à venda no mercado, 4 quilos. Isto custaria por dia Cr$ 420, ou seja, Cr$ 42 por litro de leite. Ora, com 2 quilos da mistura melaço- ureia e três quilos de milho triturado com sabugo e palha teríamos a mesma proteína a um custo diário de Cr$ 80, portanto com uma incidência sôbre litro de leite de apenas Cr$ 8. É notável a diferença. Um bom misturador de ureia custa apenas Cr$ 85 mil, com capacidade para 150 litros em meia hora.
Naturalmente que aí estão sugestões de carátdr geral. Pois as vacas, como as mulheres, são caprichosas, e em cada caso solicitam tratamento especial, muita atenção, devendo o produtor de leite, para ser bem sucedido, ter a sensibilidade de um Don Juan.
Texto de José Resende Peres publicado na coluna "O Globo Vai ao Campo" pag. 10, jornal "O Globo", Rio de Janeiro, 22 de julho de 1966. Digitalizado, adaptado e ilustrado para ser postado por Leopoldo Costa.

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