9.20.2017

ORIGENS E PRESSUPOSTOS DA GEOGRAFIA


O rótulo Geografia é bastante antigo, sua origem remonta à Antiguidade Clássica, especificamente ao pensamento grego. Entretanto, apesar da difusão do uso deste termo, o conteúdo a ele referido era por demais variado. Ficando apenas ao nível do pensamento grego, aí já se delineiam algumas perspectivas distintas de Geografia: uma, com Tales e Anaximandro, privilegia a medição do espaço e a discussão da forma da Terra, englobando um conteúdo hoje definido como da Geodésia; outra, com Heródoto, se preocupa com a descrição dos lugares, numa perspectiva regional. Isto para não falar daquelas discussões, hoje tidas como geográficas, mas que não apareciam sob esta designação, como a da relação entre o homem e o meio, presente em Hipócrates, cuja principal obra se intitula 'Dos Ares, dos Mares e dos Lugares'.

Muitas vezes, na obra de um mesmo autor, aparece em vários momentos a discussão de temas, hoje tidos como da Geografia, sem que houvesse a mínima conexão entre eles; é o caso, por exemplo, de Aristóteles, que discute a concepção de lugar, na sua Física, sem articulá-la com a discussão da relação homem-natureza, apresentada em sua Política, e sem vincular esses estudos com sua Meteorologia (onde ensaia uma classificação dos tipos de clima) e com suas descrições regionais, como a efetuada sobre o Egito.

Desta forma, pode-se dizer que o conhecimento geográfico se encontrava disperso. Por um lado, as matérias apresentadas com essa designação eram bastante diversificadas, sem um conteúdo unitário. Por outro lado, muito do que hoje se entende por Geografia, não era apresentado com este rótulo. Este quadro vai permanecer inalterado até o final do século XVIII. Isto não quer dizer que inexistam autores expressivos, no decorrer deste enorme período da História da humanidade, que tenham dado esta rotulação a seus estudos.

Basta pensar em Cláudio Ptolomeu, que escreve uma obra 'Síntese Geográfica' que, principalmente em sua versão árabe intitulada 'Almagesto', vai constituir-se num dos principais veículos que resgatam as descobertas do pensamento grego clássico, durante a Idade Média. Ou em Bernardo Varenius, cuja obra 'Geografia Generalis' vai ser um dos fundamentos das teorias de Newton. Porém, ao se analisar as colocações desses autores, observa-se que a maior parte dos temas tratados pouco ou nada têm em comum com o que posteriormente será considerado Geografia.

Assim, até o final do século XVIII, não é possível falar de conhecimento geográfico, como algo padronizado, com um mínimo que seja de unidade temática, e de continuidade nas formulações. Designam-se como Geografia: relatos de viagem, escritos em tom literário; compêndios de curiosidades, sobre lugares exóticos; áridos relatórios estatísticos de órgãos de administração; obras sintéticas, agrupando os conhecimentos existentes a respeito dos fenômenos naturais; catálogos sistemáticos, sobre os continentes e os países do Globo etc. Na verdade, trata-se de todo um período de dispersão do conhecimento geográfico, onde é impossível falar dessa disciplina como um todo sistematizado e particularizado. Nélson Werneck Sodré denomina-o de “pré-história da Geografia”.

A sistematização do conhecimento geográfico só vai ocorrer no início do século XIX. E nem poderia ser de outro modo, pois pensar que a Geografia como um conhecimento autônomo, particular, demandava um certo numero de condições históricas, que somente nesta época estarão suficientemente maturadas. Estes pressupostos históricos da sistematização geográfica objetivam-se no processo de produção. Assim, na própria constituição do modo de produção capitalista.

O primeiro destes pressupostos dizia respeito ao conhecimento efetivo da extensão real do planeta. Isto é, era necessário que a Terra toda fosse conhecida para que fosse pensado de forma unitária o seu estudo. O conhecimento da dimensão e da forma real dos continentes era a base para a idéia de conjunto terrestre, concepção basilar para a reflexão geográfica. Esta condição começa a se realizar com as “grandes navegações”, e as conseqüentes descobertas, efetuadas pelos europeus, a partir do quinhentismo. A constituição de um espaço mundial, que tem por centro difusor a Europa, é elemento destacado do processo de transição do feudalismo para capitalismo.

A formação deste modo de produção exige a articulação de suas relações a uma escala planetária, o que faz expandir sua área de ação das sociedades européias a todo o globo terrestre. Este processo de formação de um espaço mundializado, pela primeira vez na História da humanidade, só está plenamente constituído em fins do século XIX. O que não quer dizer que, nesta época, todos os pontos da Terra já haviam sido visitados, mas que sua existência era conhecida. Havia consciência dos contornos gerais da superfície terrestre, das terras existentes.

Outro pressuposto da sistematização da Geografia era a existência de um repositório de informações, sobre variados lugares da Terra. Isto é, que os dados referentes aos pontos mais diversificados da superfície já estivessem levantados (com uma margem de confiança razoável) e agrupados em alguns grandes arquivos. Tal condição incidia na formação de uma base empírica, para a comparação em Geografia. Só a partir daí, seria possível discorrer, com base em evidencias, sobre o caráter variável dos lugares, sobre a diversidade da superfície da Terra. Assim, o levantamento de realidades locais, em número elevado, aparece como fundamento de uma reflexão geográfica sólida.

Tal condição vai se substantivando com o próprio avanço do mercantilismo e com a formação dos impérios coloniais. A apropriação de um dado território implicava o estabelecimento de uma relação mais estreita com os elementos aí existentes, logo, num maior conhecimento de sua realidade local. O domínio implicava em ir além do simples conhecimento de novas terras, era necessário penetrá-las e criar aí estabelecimentos constantes, enfim apropriá-las. A exploração produtiva dos territórios coloniais, com o estabelecimento de atividades econômicas, aprofundava ainda mais o conhecimento de suas características.

Com o desenvolvimento do comércio colonial, os Estados europeus vão incentivar o inventário dos recursos naturais, presentes em suas possessões, gerando informações mais sistemáticas, e observações mais cientificas. Assim, passou-se dos relatos ocasionais aos levantamentos mais técnicos; das expedições exploradoras às expedições científicas. O interesse dos Estados levou ainda à fundação de institutos nas metrópoles, que passaram a agrupar o material recolhido, como as sociedades geográficas e os escritórios coloniais. A Geografia da primeira metade do século XIX foi, fundamentalmente, a elaboração desse material.

Outro pressuposto para o aparecimento de uma Geografia unitária, residia no aprimoramento das técnicas cartográficas, o instrumento por excelência do geógrafo. Era necessário haver possibilidade de representação dos fenômenos observados, e da localização dos territórios. Assim, a representação gráfica, de modo padronizado e preciso, era um requisito da reflexão geográfica; era também uma necessidade posta pela expansão do comércio. O aparecimento de uma economia global, que articulava distintas e longínquas partes da Terra, demandava mapas e cartas mais precisas. Era fundamental, para a navegação, poder calcular as rotas, saber a orientação das correntes e dos ventos predominantes, e a localização correta dos portos. Estas exigências fizeram desenvolver o instrumental técnico da cartografia. Finalmente, a descoberta das técnicas de impressão, difundiu e popularizou as cartas e os Atlas.

Todas estas condições materiais, para a sistematização da Geografia, são forjadas no processo de avanço e domínio das relações capitalistas. Dizem respeito ao desenvolvimento das forças produtivas, subjacente à emergência do novo modo de produção. Entretanto, existe uma outra classe de pressupostos, a dos referidos à evolução do pensamento. Estes se substantivam no movimento ideológico, engendrado pelo processo de transição do feudalismo ao capitalismo. Assim, foram a correspondência, no plano filosófico e científico, das transformações operadas ao nível econômico e político. Estes pressupostos implicavam a valorização dos temas geográficos pela reflexão da época, a ponto de legitimarem a criação de uma disciplina específica dedicada a eles. Estas condições necessárias se expressam nas fontes imediatas do pensamento geográfico, naqueles autores e escritos diretamente citados pelos primeiros geógrafos. Assim, estes pressupostos referem-se ao conjunto de formulações que, incidindo sobre os temas tratados pela geografia, valorizam-nos, legitimam-nos, enfim dotam-nos de uma cidadania acadêmica.

Uma primeira valorização do temário geográfico vai ocorrer na discussão da Filosofia. As correntes filosóficas do século XVIII vão propor explicações abrangentes do mundo; formulam sistemas que buscam a compreensão de todos os fenômenos do real. A meta geral de todas as escolas, neste período, será a afirmação das possibilidades da razão humana; a aceitação da existência de uma ordem, na manifestação de todos os fenômenos, passível de ser apreendida pelo entendimento e enunciada em termos sistemáticos; uma fé na viabilidade de uma explicação racional do mundo. Esta postura progressista insere-se no movimento de refutação dos resquícios de ordem feudal, pois esta se apoiava numa explicação teológica do mundo. Propor a explicação racional do mundo implicava deslegitimar a visão religiosa, logo, a ordem social por ela legitimada.

Esta perspectiva, de explicar todos os fenômenos, englobava também aqueles tratados pela Geografia, sendo assim um fundamento geral de sua sistematização. Porém, havia discussões filosóficas especificas, que diretamente tratavam de temas geográficos. Os autores que se dedicaram à Filosofia do Conhecimento, como Kant ou Liebniz, enfatizaram a questão do espaço. No caso de Kant, sem articular esta discussão (posta ao nível da “razão pura”) com aquela por ele efetuada com o rótulo explícito de Geografia (posta ao nível da “razão prática”). Outros filósofos, que discutiram a Filosofia da História, como Hegel ou Herder, destacaram a questão da influência do meio sobre a evolução das sociedades. Herder levanta uma idéia, que será acatada com entusiasmo pelos geógrafos, a de ver a Terra como “teatro da humanidade”. Enfim, estas formulações trouxeram uma valorização do temário da Geografia.

Outra fonte da sistematização geográfica pode ser detectada nos pensadores políticos do Iluminismo. Estes autores foram os porta-vozes do novo regime político, os ideólogos das revoluções burguesas, os propositores da organização institucional, que interessava ao modo de produção emergente. Em suas argumentações, passaram por temas próprios da Geografia, notadamente ao discutir as formas de poder e de organização do Estado. Rousseau, por exemplo, discutiu a relação entre a gestão do Estado, as formas de representação e a extensão do território de uma sociedade. Dizia ele que a democracia só era possível nas nações pouco extensas, e que os Estados de grandes dimensões territoriais tendiam necessariamente a formas de governo autocráticas.

Outro autor iluminista, Montesquieu, em sua célebre obra 'O espírito das Leis', dedica todo um capítulo à discussão sobre a ação do meio no caráter dos povos. Nesse sentido, elabora teses profundamente deterministas, como a de que os povos que habitam regiões montanhosas teriam uma índole pacífica (pois contariam com uma proteção natural do meio), ao passo que os habitantes da planície seriam naturalmente guerreiros (em face da contínua possibilidade de invasões propiciada pelo relevo plano). De todo modo, estas discussões vieram enriquecer a posição desfrutada pelos temas geográficos; suas citações são comuns nos trabalhos dos primeiros geógrafos.

Também os trabalhos desenvolvidos pela Economia Política atuaram na valorização dos temas geográficos. Esta disciplina foi responsável pelas primeiras análises sistemáticas de fenômenos da vida social. Seu desenvolvimento precoce se deve às próprias necessidades práticas postas pelo incremento do comércio e das relações econômicas em geral, que impunham a criação de uma contabilidade racional e a ordenação padronizada das finanças.

Os economistas políticos discutiram questões geográficas, ao tratar de temas como a produtividade natural do solo; a dotação diferenciada dos lugares, em termos de recursos minerais; o problema da distância, o do aumento populacional, entre outros. Suas teorias divulgaram estas questões, que posteriormente constituiriam o temário clássico da Geografia. Daí o fato de autores, como Adam Smith e Malthus serem citados com freqüência pelos sistematizadores do conhecimento geográfico.

Finalmente, o temário geográfico vai obter o pleno reconhecimento de sua autoridade, com o aparecimento das teorias do Evolucionismo. Estas, contemporâneas da sistematização da geografia, forneceram o patamar imediato da legitimação cientifica dessa disciplina. O Evolucionismo, visto como conjunto de teorias, que partem das formulações de Darwin e Lamarck, dá um lugar de destaque, em sua explicação, ao papel desempenhado pelas condições ambientes; na evolução das espécies, a adaptação ao meio seria um dos processos fundamentais. São inúmeras as alusões a Darwin e Lamarck, nas obras dos primeiros geógrafos.

Também um discípulo deste, Haeckel, vai ser bastante citado; desenvolveu a idéia de Ecologia, isto é, do estudo da inter-relação dos elementos que coabitam um dado espaço. Dada a difusão das teorias evolucionistas, no meio acadêmico da época, a Geografia nelas teve uma base científica sólida para suas indagações. Tal fonte foi, em grande parte, responsável pela metodologia naturalista, que impregnou as propostas dos primeiros geógrafos e que passou, como herança, aos seus sucessores.

Ao início do século XIX, a malha dos pressupostos históricos da sistematização da Geografia já estava suficientemente tecida. A Terra estava toda conhecida. A Europa articulava um espaço de relações econômicas mundializado, o desenvolvimento do comércio punha em contato os lugares mais distantes. O colonizador europeu detinha informações dos pontos mais variados da superfície terrestre. As representações do Globo estavam desenvolvidas e difundidas pelo uso cada vez maior dos mapas, que se multiplicavam.

A fé na razão humana, posta pela Filosofia, abria a possibilidade de uma explicação racional para qualquer fenômeno da realidade. As bases da ciência moderna já estavam assentadas. As ciências naturais haviam constituído um cabedal de conceitos e teorias, do qual a Geografia lançaria mão, para formular seu método. E, principalmente, os temas geográficos estavam legitimados como questões relevantes, sobre as quais cabia dirigir indagações científicas.

Estas condições haviam se constituído no próprio processo de formação, avanço e domínio das relações capitalistas. Tal processo realiza tanto os pressupostos materiais, quanto os vinculados à evolução do pensamento. A sistematização da Geografia, sua colocação como uma ciência particular e autônoma, foi um desdobramento das transformações operadas na vida social, pela emergência do modo de produção capitalista. E, mais, a Geografia foi, na verdade, um instrumento da etapa final deste processo de consolidação do capitalismo, em determinados países da Europa.

Assim, os pressupostos históricos e as fontes da sistematização geográfica se forjaram no período da transição, na “fase heróica” da burguesia, em que esta classe agia e pensava no sentido de transformar a ordem social existente. Sua luta, contra os resquícios do modo de produção feudal, dava um conteúdo progressista à sua prática e ao seu pensamento. Por outro lado, a sistematização geográfica, em si mesma, ocorria já num momento de pleno domínio das relações capitalistas, em que a burguesia já se sedimentara no controle dos Estados. Deste modo, a efetivação da Geografia, como um corpo de conhecimentos sistematizado ocorria já no período da decadência ideológica do pensamento burguês, em que a prática dessa classe, então dominante, visava a manutenção da ordem social existente. Este é um dado fundamental para se compreender o que foi a Geografia.

O processo de transição do feudalismo para o capitalismo manifestou-se a nível continental na Europa. Porém, não de forma homogênea. Ao contrário, obedecendo a particularidades, em cada país onde se apresentou. Existiram, assim, vias singulares de desenvolvimento do capitalismo, que engendraram manifestações ímpares. A Geografia será filha de uma destas singularidades. Aquela da via particular do desenvolvimento do capitalismo na Alemanha, sem a qual não se pode compreender a sistematização da Geografia.

Os autores considerados os pais da Geografia, aqueles que estabelecem uma linha de continuidade nesta disciplina, são alemães – Humboldt e Ritter. Na verdade, todo o eixo principal da elaboração geográfica, no século XIX, estará sediado neste país. É da Alemanha que aparecem os primeiros institutos e as primeiras cátedras dedicadas a esta disciplina; é de lá que vêm as primeiras teorias e as primeiras propostas metodológicas; enfim, é lá que se formam as primeiras correntes de pensamento. Tal relação, entre o aparecimento da Geografia e a via do desenvolvimento do capitalismo na Alemanha, não é esta razão, cabe discutí-la.

Texto de Antonio Carlos Robert Moraes em "Geografia, Pequena História Crítica", Hucitec, 1994, excertos pp.11-14. Digitalizado, adaptado e ilustrado para ser postado por Leopoldo Costa.



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