3.13.2011

AS LEGUMINOSAS SALVARAM A HUMANIDADE

Em um artigo publicado pelo jornal 'The New York Times', o escritor italiano Umberto Eco, autor do bestseller '0 Nome da Rosa', conta como o cultivo de leguminosas -feijão, ervilha e lentilha - salvou a Europa de morrer de desnutrição na virada do primeiro milênio da era cristã. Eram tempos duros, em que as pessoas morriam de fome ou viviam doentes por causa da alimentação precária. 0 desenvolvimento do cultivo das leguminosas mudou tudo. Fontes de proteína, elas substituíam a carne escassa. A pecuária praticamente não existia e caçar era um privilégio dos nobres. Com a nova dieta, os camponeses tomaram-se mais robustos e resistentes a doenças. A expectativa de vida aumentou significativamente e a mortalidade infantil decaiu.


Os avanços na agricultura descritos por Eco não param por aí. Novas ferramentas agrícolas também começaram a ser usadas, entre elas um tipo de, arreio que aumentava a eficiência dos cavalos ao puxar o arado. Em vez de ser presa no pescoço do animal, a armação de couro ficava sobre os músculos do peito, permitindo maior impulsão. Resultado: em apenas dois séculos, a partir do ano 1000, a produção agrícola multiplicou-se por cinco. Na França, a população triplicou. A circulação de pessoas e mercadorias acelerou-se, e as cidades, que não passavam de pequenos centros de artesãos, transformaram-se em grandes núcleos populacionais.


A curiosidade a respeito de como a humanidade vivia e enfrentou a virada do primeiro milênio nunca foi tão grande como agora. Às vésperas do ano 2000, dezenas de artigos, ensaios e livros estão sendo publicadas sobre o assunto. Urna dessas novidades é o livro 0 Ano 1000, escrito pelos jornalistas ingleses Robert Lacey e Danny Danziger, lançado no Brasil pela Editora Campus.


A população mundial na virada do milênio era de 300 milhões de pessoas. A maioria delas habitava lugares desconhecidos dos europeus, como a China, a África e a índia. Noventa por cento dos europeus viviam no campo, subordinados aos senhores feudais. Na Inglaterra, as 100 palavras mais usadas na língua inglesa atual já faziam parte do vocabulário da população, que, no entanto, era completa.mente analfabeta. Lia-se e escrevia-se apenas nos mosteiros, depositários dos pergaminhos gregos e latinos que sobreviveram às invasões bárbaras. Nesses conventos, as regras previam cinco banhos para cada monge - por ano. Em toda a Europa, só na Dinamarca havia o hábito de tomar banho aos sábados e escovar os cabelos. No fim do século X, a civilização medieval já tinha -seu próprio Viagra. Era uma planta chamada agrimônia, cujas flores fervidas no leite combatiam a impotência. Se fossem fervidas na cerveja, o efeito era contrário.


Sobreviver nos anos finais do primeiro milênio não era tarefa fácil. Nos séculos anteriores, invasões de bárbaros, saques, epidemias, fome e miséria destruíram tudo o que os romanos haviam construído no maior império até então visto pela humanidade. Estradas, aquedutos e cidades viraram ruínas e foram tomados pelo mato, da mesma forma que boa parte dos campos destinados ao cultivo voltou a ser floresta fechada. Vikings, húngaros, normandos e sarracenos invadiam de tempo a tempo a Europa Ocidental, a cavalo, a pé e até mesmo de barco pelos rios. Ninguém estava a salvo dos saques que atingiam indiscriminadamente castelos, mosteiros e cidades. Quando não eram os bárbaros eram os senhores feudais e membros do clero se encarregavam de explorar a imensa maioria da população. 0 povo vivia sob constante terror.


Ninguém duvidava, naquela época, de que os mortos continuassem a viver em um mundo além-túmulo. Todos os povos, em especial na Europa, eram dominados pelas mesmas angústias. A cólera divina pesava sobre a humanidade e podia manifestar-se por este ou aquele flagelo. Era fundamental, por tanto, garantir a graça de Deus, o que dava à Igreja um poder total sobre ricos e pobres.


A população acreditava piamente que o fim dos tempos estava próximo. 0 Livro do Apocalipse dizia que o demônio ficaria aprisionado por 1000 anos no abismo ao qual fora atirado pelo anjo de Deus e os padres medievais apregoavam essas escrituras pelos quatro ventos, associando o número da Bíblia à data mítica do novo milênio. Em 989, uma estrela dotada de urna imensa cauda assombrou os 38 milhões de pessoas que então habitavam a Europa. Aparecia no crepúsculo e sumia com os primeiros raios de sol. Em um dos raríssimos relatos da época que chegaram a nossos dias, o monge Radulphus Glaber, da Borgonha, conta que por três meses esse estranho corpo celeste ficou ali, no céu.


Era apenas o cometa de Halley, aquele que a cada 76 anos circula nas vizinhanças da Terra. Para a população medieval, porém, pareceu o sinal inequívoco de que o fim dos tempos havia chegado. Glaber conta que, logo depois, incêndios devastaram cidades inteiras da Itália e da França atual, levando as pessoas a um pavor sem precedentes. Na prática, ocorreu o oposto do que muita gente temia. Já em 1003, segundo o cronista borgonhês, "parecia que a própria Terra, renovando a si mesma e atirando fora os tempos antigos, se vestia com um manto branco pontilhado de igrejas". As cidades floresceram, enfeitadas por belos prédios, como palácios e catedrais.


As condições sanitárias nas cidades continuavam terríveis. Os esgotos a céu aberto tornavam o ar insuportável, principalmente no verão. Os ratos pululavam em meio ao lixo e era comum sentar à mesa de refeições acompanhado de um enxame de moscas. No século XIV, mais de 300 anos depois da passagem do cometa, chegou a verdadeira hecatombe que os europeus temiam. Uma epidemia de peste bubônica vinda do Oriente se instalou nos portos mercantis da Itália e dali se espalhou pelo resto do continente, ceifando um terço de toda a população. Pelo menos 25 milhões de mortos apenas no verão de 1348. A peste se propagava pelas pulgas e parasitas que viviam no pêlo dos ratos. Entre os relatos dessa época macabra, os cronistas registram que no convento de Montpellier, um daqueles onde os banhos eram escassos, não restou um único monge dos 45 que lá viviam.

Artigo publicado na Revista Veja de 28 de julho de 1999

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