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| Cálculos biliares bovinos |
E ele é tão palpável que não pode ser outro o objetivo dos fazendeiros do Pantanal mato-grossense que estão se preparando para criar jacarés a partir do ano que vem. O jacaré criado em cativeiro não sofre restrições a comercialização.
A notícia, veiculada na semana passada deve ter entusiasmado nossos Importadores potenciais. Esses, aliás, já nos compram coisas bem exóticas. Vendemos desperdício de chifres para os Estados Unidos, Alemanha Ocidental e ReinoUnido. Fornecemos trapos e farrapos para os EUA, Bolívia e Paraguai. Exportamos barbatanas de tubarão e bexigas natatórias de peixe para Hongcong. Abastecemos o Uruguai e o Paraguai com tampinhas de cerveja. Colocamos nossos palitos de dentes e de fósforos nos mercados da Argentina, da Austrália , da Tunísia e do Chile, entre outros. Levamos nossos biribas para Trinidad-Tobago. Conqistamos o mercado de farinha de chifres e cascos torrada do Reino Unido. Já temos espaço — restrito, verdade — no mercado de cruclifixos do Congo. Somos grandes exportadores de asas de borboleta para o Japão. Mas, tem multo mais;
— Devemos exportar, este ano, cerca de 30 quilos de cálculos biliares bovinos para a Suíça — informa Leopoldo Costa, gerente de produção e Custos do Frigorifico Anglo,de São Paulo.
Cotados a US$6.500 o quilo, para o produto com de 60% a 40% de grau de pureza (há ainda mais duas cotações, segundo o grau de pureza: U8$ 3.100, o quilo de cálculos com menos de 40% de pureza, e US$ 500, para os que contenham vestígios de sangue ou quistos) —, os cálculos biliares são avidamente disputados no mercado externo. E, por isso mesmo, também no intrerno. — Principalmente nas épocas que a defasagem entre o dólar no câmbio oficial e no paralelo é maior, há uma procura muito grande dentro do Pais, por pessoas que vendem clandestinamente o produto para o exterior. - explica Leopoldo Costa.
Mas, afinal, para que serve cálculo biliar de boi, que faz com que seja cotado acima de pedras preciosas, como a ametista, por exemplo? O gerente de produção da Anglo explica que é um importante Ingrediente na fabricação de remédios da medicina oriental, provavelmente usado numa pomada chinesa, até bem difundida no mundo ocidental — acondicionada numa minúscula lata vermelha —, que é tida como lenitivo para os mais variados males, da dispnéia e nevralgia, da enxaqueca á impotência sexual.
Apesar de ressaltar que o valor global de exportação desse produto é irrisório diante do volume de vendas da empresa no mercado externo (a Anglo deve exportar este ano cerca de U8Í 100 milhões, dos quais US$ 196 mil em cálculos biliares), Leopoldo Costa diz que também exporta outro produto exótico, com valor unitário ainda menor;
— Vendemos farinha de cascos de chifre torrada para a Europa. Lá eles a utilizam como fertilizante para a pequena jardinagem. Mas também é insignificante em termos de retorno financeiro para a empresa: 150 dólares a tonelada.
Leopoldo lembrou ainda que o Brasil exporta cerdas de porco para a França. Só que essa transação não é muito interessante para a nossa economia:
— Vendemos a cerda de porco para os franceses, a preço de banana, e importamos os pincéis caríssimos que eles fazem com ela.
Esse tipo de coisa ainda é multo comum. Uma característica de pais do Terceiro Mundo de que ainda não conseguiu livrar-se totalmente: exportar matéria-prima, importar manufaturado. E vale outro exemplo.
A Hoescht do Brasil vende desperdícios e farinha de chifre e cascos — sem torrar — para a Alemanha Ocidental. Lá, na matriz, esse material é transformado em pó químico para extintores de incêndio.. Esse produto é posteriormente Importado pelo Pais. Não é apenas a matéria-prima que é transformada; o preço também. E multo. A cotação da farinha de chifre no mercado externo está atualmente em 89 dólares a tonelada.
Ainda na área de matérias- primas exóticas, nós exportamos veneno de serpente para a Suíça e para os Estados Unidos e, provavelmente, Importamos soro antiofídico. O provavelmente fica por conta da Syntex do Brasil — que exportava o produto até o ano passado — que não desmentiu nem confirmou a informação.
Borboletas
O mercado de asas de borboleta está em ascensão. Dos quatro quilos comercializados no Exterior, no ano passado, esse segmento deu um salto para mais de 136 quilos, apenas no primeiro semestre deste ano. Por outro lado, a cotação baixou; dos25 dólares por quilo, em 1983, chegou-se a menos de 90 dólares este ano. Coisas de mercado. Além disso, há alguns outros problemas:
— Não está mais sendo possível exportar para os Estados Unidos, pois as leis de proteção aos animais estão muito fortes e o mercado do Japão, que é o melhor, é dominado por eles próprios — explica Azudir Cattoni, o maior exportador de asas de borboletas do Pais (US$ 6.304 vendidos em 1984), segundo dados da Cacex.
O desconfiado Azudir — mais preocupado com os assaltos que ocorrem com frequêncla em sua loja na Galeria Metrópole do que com as oscllações do mercado externo de borboletas — não concorda com o titulo nem com o fato de ser um dos únicos três exportadores com vendas ao Exterior registradas na Cacex:
— Não é possível. Os japoneses da rua Galvão Bueno exportam multo mais que eu. Alguma coisa não está certa. . .
O exportador lamenta o endurecimento da legulação norte-americana, que levou ao fechamento desse mercado, obrigando-o a diversificar a sua pauta (ele também exporta pedras preciosas). E explica o processo artesanal de confecção dos quadros — de gosto discutível — em que elas são comercializadas " é proibida a venda de asas de borboletas a granel)";
— As borboletas são criadas em Taíó, Santa Catarina, a capital brasileira da borboleta. São mais de 600 espécies. As mais usadas nos quadros são as amarelas, marrons e vermelhas. Depois de desprendidas do corpo da borboleta, as asas são coladas, uma a uma, manualmente, com cola de sapateiro, sobre o quadro. Agora, em Taió, ]á estão produzindo quadros lndustrialmente.
Trapos e farrapos
E nós também exportamos o nosso lixo Industrial. As sobras, os retalhos e até mesmo a poeirinha que sobra do corte dos tecidos nas Indústrias de coníecçáo estãáo sendo vendidos ao mercado externo. Apenas a São Paulo Alpargatas S. A. vendeu quase 50 mil dólares no primeiro semestre deste ano (ano passado vendeu 144 mli dólares), Eduardo Francisco de Moura, auxiliar de exportação da empresas, explica:
— Nós vendemos prlncipalmente sobras de tecidos de algodão para os Estados Unidos. Esse ano Já embarcamos cerca de 240 toneladas. Desses trapos, os americanos fazem papel. Ouvi dizer que é para fazer papel-moeda, mas não tenho certeza.
Segundo Eduardo, a Alpargatas exporta trapos há mais de dez anos. Atualmente, o quilo de trapos é vendido a 20 centavos de dólar, (FOB), em média. Há variações conforme a classificação, em cinco tipos: algodão, sobras, trapos, farrapos e poeira.
Texto não assinado publicado no "Jornal da Tarde", São Paulo, 3 de dezembro de 1984, excerto p. 10. Digitalizado, adaptado e ilustrado para ser postado por Leopoldo Costa.

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