9.10.2017

VOCÊ É O OUTRO


Viver em sociedade exige limites e respeito nos ambientes públicos e privados. Psicanalistas apontam urgência de mudança no comportamento.

Atitudes “espertas", o indefectível jeitinho, o pensar no próprio umbigo. Comportamentos que estão nas entranhas da sociedade brasileira e causam prejuízo em todos os níveis, tanto no ambiente público quanto no privado. Na interpretação da psiquiatra e psicanalista Gilda Paoliello, “no princípio foi o ato". O homem que pela primeira vez revidou seu inimigo com uma palavra no lugar da lança foi o fundador da civilização, nos fala Freud. A inserção do homem na cultura é marcada pelo reconhecimento da lei simbólica, permitin- do-o tomar-se um ser biológico falante, capaz de desejar e também de respeitar o outro. Mas essa inserção na civilização tem um preço: a renúncia ao princípio do prazer e à satisfação cega de nossos instintos. É o que nos distingue dos animais, regidos cada qual por sua "bula biológica". "Quando nos tomamos humanos, perdemos essa bula, que é substituída pelas leis formais e as regras que permitem a construção do laço social, que promove o acordo entre os homens".

Leis, regras e acordos. Direitos e  deveres. Porque é tão difícil cumpri-los? "Uma lei social prioritária é o reconhecimento da alteridade, lembrando-nos que não existimos sem o outro. É esse reconhecimento que nos constitui como sujeito: sujeito da história, do desejo e do direito, entre outros. Trocando em miúdos, é o que nos faz gente. Entretanto, vimos, a todo momento, essas regras sendo negligenciadas ou mesmo ignoradas em prol de um individualismo, como se o outro não existisse. Isso não é exatamente uma peculiaridade de nosso tempo, pois, historicamente, conhecemos acordos sociais que foram quebrados", explica Gilda. E, de acordo com ela a vida forçosamente coletiva de nossa contemporaneidade hipertrofia essa tendência. "Pequenos assassinatos sociais são cometidos a cada momento na vida familiar, no trânsito, no trabalho, nos ambientes coletivos, onde sempre há alguém querendo levar vantagem, desconsiderando o prejuízo alheio ou colocando no outro a responsabilidade por seus próprios erros."

Para Gilda Paoliello, o "sem-limites" em palavras, atos ou omissões tem sido, esse sim, "a marca de nossa contemporaneidade, como uma expressão da pulsão de morte. Precisamos, urgentemente, de um contraponto, reforçando Eros em sua vertente afetiva, por meio da cordialidade e respeito pelo outro. Não são necessários grandes exercícios de cidadania. A magia está,-na maioria das vezes, na surpresa dos pequenos atos". A psicanalista conta que, há algum tempo, estava com o carro parado, distraída, respeitando um sinal vermelho. A janela fechada, após já ter sido assaltada por duasvezes, quando um mendigo, em cadeira de rodas, bateu no vidro. “Instintivamente, abri. Ele me pediu um trocado e eu disse que não tinha Ele me agradeceu com entusiasmo por haver aberto o vidro e me desejou bom dia Um gesto simples de ambas as partes, que nos fez bem, com certeza mais a mim que a ele!"

CURA 

No entanto, Gilda ensina que, se as palavras suscitam afetos e são meio de mútua influência entre as pessoas, possibilitando acordos e resolução de conflitos, são também capazes de ferir. "Do bullying escolar ou no ambiente de trabalho, os atuais e fantásticos instrumentos de comunicação, que em tudo facilitam nossas vidas, se prestam também a excelentes meios de promover desafetos e disseminar intolerância e preconceitos, como mostram episódios recentes nas mídias sociais. O problema é que, como disse Umberto Eco, a mídia social dá voz a uma legião de imbecis, que antes falava apenas no bar depois de beber uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade“'.

Contextualizando o desrespeito ao outro, Gilda lembra que em nosso meio muito se comenta sobre a mania de o brasileiro ignorar as leis. "Parece que, em nosso momento político atual, o feitiço cai sobre o feiticeiro. Em "O Homem Cordial", Sérgio Buarque de Holanda não faz apologia do brasileiro. Ele interpreta que â vida em sociedade - para o brasileiro - é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele tem de viver consigo mesmo”. E conclui: "Ele é antes um viver nos outros. Esse mau viver consigo mesmo tem feito o brasileiro (com)viver mau no outro. O brasileiro precisa, urgentemente, curar-se de si mesmo."


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PACTO DE TODOS

Na visão da psicanalista Inez Lemos, a ideia do "agir como um babaca” recai na lógica da atitude antisocial, que fere o espaço público, que é o social. "Vivemos uma briga do público com o privado. E a lógica do privado é se sobrepor ao público. Ele quer a calçada, a rua, a fila dupla... Uma lógica colonial do privilégio, do poderoso, do mais forte. Este é o aspecto cultural.” Quanto ao individual, ela explica que é questão de família. "A educação vem em franco declínio. A educação não formal no Brasil é uma das piores do mündo, na ética, no respeito, enfim, o que é transmitido às crianças, tanto na família quanto na sociedade, é que o mais importante é estudar e escolher uma profissão que garanta boa rentabilidade. Os valores que sustentam a lógica do mercado são permeados pela necessidade de vencer, ganhar, superar. A concorrência acirrada impõe aos garotos forte pressão. Estudar deixou de ser uma forma de adquirir conhecimento, cultura, maturidade intelectual. Poucos cultuam a boa leitura, importa a formação técnica."

Inez diz que o problema perpassa todas as classes sociais, "A rica sempre foi meio amoral, porque compra o que quer, como justiça e privilégio etc. O pobre, muitas vezes, age de forma amoral, movido pela lógica do mercado, famílias que incentivam os filhos a se vender a qualquer custo, é onde a ética também não consegue imperar em função do desejo de conquistar ascensão social. Restou à classe média manter alguma coisa. No entanto, atualmente, ela tem sido bombardeada com exemplos fascistas. Está no centro do acirramento de forças onde são visíveis posições truculentas e de desrespeito”.

DECLÍNIO 

Para a psicanalista, com o declínio da função paterna, com o enfraquecimento da autoridade dos pais assistimos à decadência do espaço público. "Poucos pais se preocupam em educar para o cuidar da cidade, dos espaços públicos, da água, do lixo, da vida coletiva. Exemplos de pessoas de classe média alta que não se constrangem em jogar lixo na rua, parar na fila dupla, desperdiçar água, desrnatar sem necessidade, atitudes que degradam a natureza, o espaço do outro, são comuns. O exemplo deve partir da família Sem o pacto entre os pais não há pacto social."

Texto de Lilian Monteiro publicado no caderno "Bem Viver", no jornal "Estado de Minas" de 19 de julho de 2015. Digitalizado, adaptado e ilustrado para ser postado por Leopoldo Costa.


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